terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A façanha do crédito

O aumento do crédito foi a façanha econômica da última década no Brasil. Falamos muito na manutenção da estabilidade, mas ela foi conquistada em 1999, com a transição para o câmbio flutuante e a adoção de metas de inflação e austeridade fiscal. Mantido o tripé, veio a conquista da confiança que permite o aumento de prazos, redução de juros e o acesso de milhares de pessoas ao mercado de bens duráveis. O crédito do Brasil beira os 50% do PIB, cresce mais de 20% ao ano e, por mais que venham à mente as lições da crise do subprime nos EUA, ainda não se trata de uma bolha (e, acredite, as bolhas brasileiras virão).

O crédito aumenta a eficiência da economia -- pessoas que querem poupar para o futuro não precisam guardar dinheiro sob o colchão e emprestam para quem quer antecipar o consumo ou o investimento. Para crescer, ele depende de uma macroeconomia estável e dos incentivos certos. E é aqui que entram alguns méritos do governo Lula, como a criação do crédito consignado e a Lei de Falências. Nos dois casos, a lógica foi reduzir o risco aliado aos empréstimos (para pessoas e empresas). Na construção civil, foi reduzido o custo das transações (como com os seguros dos empréstimos). Agora, um pacote reduz o custo para investimentos de longo prazo em infraestrutura.

Com a redução dos juros e uma regulação um pouco melhor, o brasileiro sentiu o poder do crédito. Ele permite viagens no tempo. Um empreendedor com uma boa ideia não precisa esperar dez anos para juntar dinheiro e montar a empresa. Ele busca recursos guardados por outros e trabalha para ter retorno acima dos juros de mercado. No consumo, as pessoas antecipam o bem-estar proporcionado por uma geladeira ou carro novo, imaginando que ao longo do tempo poderão pagar a dívida com o seu trabalho. Quando a renda está em crescimento, como nos últimos anos, o otimismo com relação ao futuro faz com que as pessoas fiquem ainda mais propensas a tomar empréstimos.

Em períodos assim, de otimismo geral e expansão rápida do crédito, aparece o risco de bolhas. Há poucas semanas, o Banco Central anunciou medidas prudenciais para reduzir o volume de crédito, aumentando as reservas dos bancos e diminuindo os prazos. Isso não significa que estamos inflando bolhas, mas que o BC brasileiro está colocando em prática ensinamentos da crise. Quando há crescimento, é hora de segurar os mercados. Eles não fazem isso sozinhos. Ainda é cedo para falar de bolhas porque a renda comprometida com as prestações está praticamente estável (na casa dos 22%) e o brasileiro deve somente cerca de 35% de sua renda anual. O porcentual vai crescer com o aprofundamento do mercado imobiliário – este, sim, bastante sujeito a bolhas, mas ainda em menos de 5% do PIB brasileiro.

A aposta em microrreformas ligadas ao crédito é um bom conselho para o próximo governo. Entre elas está o desafio de acabar com algumas distorções no modelo brasileiro, como as cadernetas de poupança, o peso mastodôntico do BNDES e suas “campeãs nacionais” (aliás, não deixa de ser irônico: o Café Damasco foi vendido para uma empresa norte-americana que está em vias de, quem sabe, ser vendida para um dos campeões do BNDES, o JBS), e a falta de recursos para pequenas empresas.

Não é desprezo pela macroeconomia. O governo faria um bem danado se controlasse seus gastos para continuar na redução dos juros e, com isso, dar mais um empurrão para o crédito de longo prazo, aquele que banca os investimentos que tornam a economia mais produtiva e apta para pagar a conta para as gerações futuras.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Voltamos a falar em inflação

A inflação deste ano vai ficar acima do centro da meta de 4,5% e são grandes as chances de isso acontecer no ano que vem. O núcleo do debate sobre inflação neste momento está em seu caráter temporal: é uma elevação passageira provocada pelos preços voláteis dos alimentos, ou é causada por uma pressão de demanda de longo prazo?

O Banco Central elevou os juros no primeiro semestre – algo normal na recuperação forte da crise – e depois decidiu esperar para entender melhor a inflação. Os preços ficaram estáveis na metade do ano, resultado mais uma vez influenciado pelos alimentos. Agora, o aperto voltou à pauta, com o BC elevando o compulsório dos bancos (o que também era esperado no pós-crise) e o mercado já trabalha com alta dos juros em janeiro.

Desta vez o argumento da inflação passageira parece ter ficado de lado. Os preços dos alimentos já subiram mais de 6,5% no ano, os serviços pessoais vão acima dos 7% no ano. Os núcleos da inflação calculados pelo BC, e que descontam os preços mais voláteis, já estão acima do IPCA acumulado em 12 meses. Isso tudo em um cenário em que os efeitos benéficos da crise global sobre os preços internacionais parecem ter acabado, o câmbio parece ter estabilizado, as vendas do varejo crescem mais do que o resto da economia e o governo ainda não mostrou direito como vai cortar gastos.

Os números não são assustadores, mas o BC já usou boa parte do tempo que tinha para entender o rumo dos preços, o que custou o cumprimento da meta neste ano e, provavelmente, em 2011. Começou a hora do ajuste (do BC e da gestão das contas públicas) para, em 2012, o país debater uma meta um pouco mais baixa, com uma taxa de juros mais decente.