sexta-feira, 29 de outubro de 2010

De volta ao básico

Nesta semana, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que ajuste fiscal não tem nada a ver com juros. E nada a ver com a aprecição do real. Hum, muito estranho vindo de alguém que estudou economia. A primeira aula é com uma curva de demanda e oferta. A segunda com o modelo IS-LM, a terceira com o modelo AD-AS. Na quarta com o modelo que liga juros e câmbio. Não conhece essas letras, modelos etc? O ministro deve conhecer. São as teorias macroeconômicas mais consensuais, derivadas da obra de Keynes, que meio que inventou a macroeconomia moderna.

Por partes. O modelo IS-LM tem duas curvas em um gráfico ditado pelos juros e pela produção. Elas relacionam o rendimento total da economia com a disponibilidade de dinheiro na praça. Quando há mais dinheiro, o juro de equilíbrio cai e a produção é maior. Quando há rendimento maior, a produção cresce, mas os juros também. O BC tenta controlar juros com a curva de dinheiro e liquidez. Ele não influencia quanto as pessoas gastam, o gasto do governo e a balança comercial, as variáveis que formam a curva do rendimento na economia. Assim, quando o governo aumenta gastos, ele está forçando essa curva no sentido do aumento dos juros e da produção.

Na prática, o governo joga pela alta dos juros quando tenta inflar a produção quando o BC acha que é hora de a produção esfriar um pouco. Isso porque o BC vai retirar liquidez do mercado subindo os juros. O governo vai aumentar o gasto (que aparece na curva de rendimento) elevando os juros também. Temos, portanto, juros mais altos do que o necessário.

Isso posto, há uma relação entre câmbio e juros. A taxa real sempre se valoriza quando sobe o diferencial entre juros internos e externos. Está nos livros básicos de macroeconomia para quem quiser conferir.

O Brasil precisa de um pouco mais de teoria. Para quem quiser, recomendo o livro de macroeconomia de Olivier Blanchard, hoje economista-chefe do FMI.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

BC pragmático

Para quem acusa o Banco Central de ser muito conservador, a manutenção da taxa básica de juros em 10,75% é um fato intrigante. O BC parece estar mirando na inflação de 2012, já que o mercado tirou do centro da meta suas previsões para 2011, ao mesmo tempo em que espera uma elevação dos juros apenas para o primeiro trimestre do ano que vem. Nas projeções da autoridade monetária, a inflação voltaria para o centro da meta em 2012.

Ao mirar em 2012, porém, o BC mostra que é menos conservador do que seus críticos dizem. A parada na alta dos juros contrariou quase todos os prognósticos de mercado, muita gente teve de rever as contas porque esperava mais para a meta ser atingida no ano que vem. A autoridade monetária tem algumas razões para esperar: a atividade econômica vai perder força naturalmente após a retomada deste ano, as economias desenvolvidas ainda estão em apuros e o câmbio está mais favorável do que nunca. O Copom não quer correr o risco de frear a economia cedo demais.

Isso não significa que o Copom tenha tomado uma decisão sem outros riscos. Os preços dos serviços crescem acima da meta faz tempo, o consumo cresce mais do que a oferta, e as contas de que a inflação vai convergir para a meta levam em consideração que o governo vai voltar a fazer superávit primário de 3,3% do PIB. É possível que os dois primeiros problemas sejam controlados com um esperado esfriamento do crédito, mas só depois das eleições saberemos como será a política fiscal de 2011 em diante.

A política monetária brasileira está mais pragmática. Mas, no longo prazo, ela vai ter de entregar o que promete: inflação na meta. Ou a percepção dos preços no Brasil vai incorporar uma variação normal acima da meta, dificultado o trabalho de quem se reunir no Copom dentro de dois ou três anos.

sábado, 16 de outubro de 2010

Estado em alta

Chamou a atenção no primeiro debate do segundo turno a distância que os candidatos querem manter das privatizações. É tema proibido porque devem ter identificado uma aversão pública contra a venda de empresas estatais. Endossam o coro dos sindicatos que foram contra a venda da Usiminas, da Vale, da Telebrás. O que explica essa aversão popular, caso ela realmente exista?

Foi Lênin que cunhou o conceito de que o Estado precisa dominar os setores ditos estratégicos da economia para sustentar a revolução socialista. Ele chegou a essa conclusão após perceber o desastre que a estatização completa causaria. O Estado não teria como acertar a oferta de tudo, mas poderia fazer uma articulação nos setores estruturais, como siderurgia, petróleo, comunicações. A versão latina desse conceito veio nos anos 50, 60, com a Cepal, que defendia que o Estado deveria criar esses setores do nada, quando necessário.

O sucesso do comunismo e do desenvolvimentismo cepaliano foi enterrado pela história. Em um primeiro momento, a intervenção estatal realmente criou crescimento de setores intensivos em capital. Só que ao longo do tempo esses setores perderam competitividade, envelheceram, decaíram. O Estado até consegue reproduzir a criação de empresas do setor privado, mas tem dificuldade em reproduzir a gestão dos negócios bem-sucedidos.

O debate sobre as privatizações parece condicionado por discursos antigos demais para o país que o Brasil quer ser. Não preciso ir longe no argumento de que abundam exemplos de empresas que decolaram após a privatização. A defesa do emprego público vitalício, das vantagens ditas estratégicas, da influência política via empresas estatais não faz sentido hoje. Governos deveriam aprender com a gestão das empresas privatizadas.

O argumento contra a privatização também questiona: sem o Estado, não teríamos a Petrobras etc. Políticas industriais criam distorções, algumas delas se provam positivas, como a exploração de um recurso natural que a princípio não desperta interesse das empresas privadas. E, por isso mesmo, projetos assim podem começar com um prazo de validade. Se der certo, o governo vende. Se der errado, fecha, para não aumentar as distorções negativas (custos, cabides de empregos etc). Abrir estatais deveria ser o último recurso. Privatizar deveria ser a regra, não motivo de vergonha.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

IOF é engolido pelo Fed

É no mínimo irônico que a cotação do dólar tenha caído ontem, na sequência do aumento do IOF sobre as aplicações estrangeiras anunciado na segunda-feira. Isso mostra o quanto a valorização do real está longe de ser uma questão simples. O governo pode não ter errado ao subir o imposto, que reduz a rentabilidade das aplicações em títulos públicos e tira alguma volatilidade do mercado cambial. Só que isso é simplesmente inútil quando o que está fazendo o dólar cair é a combinação de política monetária norte-americana com os bons fundamentos brasileiros.

Ontem os mercados ficaram eufóricos com a possibilidade de o Fed, banco central dos EUA, despejar mais dinheiro no mercado para estimular a economia. Os investidores saíram às compras de qualquer coisa que não fosse dólar – ouro, ações, moedas, entre elas o real. O governo brasileiro não tem como lidar com essa política, apenas torcer para que dê certo, caso seja realmente implantada. E se sobram dólares, eles “vazam” para outras economias com retornos melhores do que zero, como a brasileira. A redução do risco de se investir no Brasil é um fato contra o qual o governo não gostaria de lutar.

O aumento do IOF foi mais um sinal de vontade dado pelo Ministério da Fazenda, após o ministro Guido Mantega ter ganhado um bom espaço nos jornais econômicos internacionais ao alertar para o que tem colocado como uma batalha cambial. Ele tem razão sobre os efeitos negativos que uma longa apreciação do real podem trazer sobre o setor produtivo, ao mesmo tempo em que está provado que o câmbio flexível é ainda o modelo mais estável já adotado pelo Brasil. O IOF maior não colou e o país terá de se voltar para o que pode funcionar: cuidar da competitividade do setor produtivo, manter uma política fiscal voltada para a redução dos juros e engrossar o coro contra o câmbio fixo da China, que dificulta o balanceamento da economia global.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Brasil precisa poupar

Na semana passada o comentarista econômico do Financial Times Martin Wolf veio ao Brasil e o que mais me chamou a atenção foi o destaque que ele deu para a necessidade de o país fazer poupança interna. Não ouvimos nada do gênero no debate econômico-eleitoral, o que é uma pena. O tema da poupança interna é essencial para o passo adiante que o Brasil espera dar para sair da segunda divisão da economia mundial. Precisamos aumentar a poupança interna e é papel do governo se preocupar com isso.

Podemos entender o crescimento econômico como o fruto da soma da expansão do consumo, do investimento, dos gastos públicos e das exportações. O Brasil tem restrições para crescer porque o investimento é relativamente baixo, na casa dos 18% do PIB. É o investimento que cria condições para que a produção cresça e, no longo prazo, a economia se torne mais produtiva, aumentando o poder de consumo dos trabalhadores e, por consequência, do governo. Mas podemos ter crescimento com investimento baixo. Basta haver uma combinação de renda e crédito em alta para as famílias consumirem mais. Ou que o governo faça mais dívida para gastar. Mas quando essas duas fontes pesam demais na composição da expansão do país, há riscos: superendividamento das famílias, incapacidade do setor produtivo atender a demanda, alta de juros provocada pela dívida pública.

Há vários cálculos circulando no mercado que indicam a necessidade de o investimento subir para algo entre 23% e 25% do PIB para a economia crescer mais rápido e de forma sustentável. Teríamos um desempenho mais equilibrado, sem os riscos ligados à expansão dos gastos das famílias e do governo. Uma transição do investimento de 18% para 25% do PIB é um processo político complexo porque exige que a poupança se eleve. É o dinheiro poupado que se transforma em investimento na economia. Se não há poupança, podemos importar recursos de outros países, como estamos fazendo agora, só que a fonte pode ser bastante instável, eleva o déficit externo, ao mesmo tempo em que as empresas do país se endividam em moeda estrangeira.

A poupança interna depende muito da política fiscal. Se o governo tem déficit, como no Brasil, ele usa parte da poupança privada para financiar suas contas, ao invés de o dinheiro virar investimento. Outro efeito do déficit é que os juros tendem a subir, desestimulando os investimentos produtivos. A poupança interna reduziria os juros, e ela deveria começar a subir com uma ação do governo. Outra opção seria o estímulo à poupança privada, como ocorreu com a regulamentação da previdência privada. Mas em um país onde as pessoas estão ávidas por consumir e a educação financeira não é das melhores, demoraria muito para que os resultados aparecessem por aí.

Hoje a poupança do Brasil é de cerca de 15% do PIB. Ou seja, abaixo do que o país investe. Ela precisa subir para dar conta dos investimentos. Os efeitos de não se conseguir essa elevação podem ser dois: crescimento modesto do PIB, ou aumento no rombo das contas externas.