Chamou a atenção no primeiro debate do segundo turno a distância que os candidatos querem manter das privatizações. É tema proibido porque devem ter identificado uma aversão pública contra a venda de empresas estatais. Endossam o coro dos sindicatos que foram contra a venda da Usiminas, da Vale, da Telebrás. O que explica essa aversão popular, caso ela realmente exista?
Foi Lênin que cunhou o conceito de que o Estado precisa dominar os setores ditos estratégicos da economia para sustentar a revolução socialista. Ele chegou a essa conclusão após perceber o desastre que a estatização completa causaria. O Estado não teria como acertar a oferta de tudo, mas poderia fazer uma articulação nos setores estruturais, como siderurgia, petróleo, comunicações. A versão latina desse conceito veio nos anos 50, 60, com a Cepal, que defendia que o Estado deveria criar esses setores do nada, quando necessário.
O sucesso do comunismo e do desenvolvimentismo cepaliano foi enterrado pela história. Em um primeiro momento, a intervenção estatal realmente criou crescimento de setores intensivos em capital. Só que ao longo do tempo esses setores perderam competitividade, envelheceram, decaíram. O Estado até consegue reproduzir a criação de empresas do setor privado, mas tem dificuldade em reproduzir a gestão dos negócios bem-sucedidos.
O debate sobre as privatizações parece condicionado por discursos antigos demais para o país que o Brasil quer ser. Não preciso ir longe no argumento de que abundam exemplos de empresas que decolaram após a privatização. A defesa do emprego público vitalício, das vantagens ditas estratégicas, da influência política via empresas estatais não faz sentido hoje. Governos deveriam aprender com a gestão das empresas privatizadas.
O argumento contra a privatização também questiona: sem o Estado, não teríamos a Petrobras etc. Políticas industriais criam distorções, algumas delas se provam positivas, como a exploração de um recurso natural que a princípio não desperta interesse das empresas privadas. E, por isso mesmo, projetos assim podem começar com um prazo de validade. Se der certo, o governo vende. Se der errado, fecha, para não aumentar as distorções negativas (custos, cabides de empregos etc). Abrir estatais deveria ser o último recurso. Privatizar deveria ser a regra, não motivo de vergonha.
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