Na semana passada o comentarista econômico do Financial Times Martin Wolf veio ao Brasil e o que mais me chamou a atenção foi o destaque que ele deu para a necessidade de o país fazer poupança interna. Não ouvimos nada do gênero no debate econômico-eleitoral, o que é uma pena. O tema da poupança interna é essencial para o passo adiante que o Brasil espera dar para sair da segunda divisão da economia mundial. Precisamos aumentar a poupança interna e é papel do governo se preocupar com isso.
Podemos entender o crescimento econômico como o fruto da soma da expansão do consumo, do investimento, dos gastos públicos e das exportações. O Brasil tem restrições para crescer porque o investimento é relativamente baixo, na casa dos 18% do PIB. É o investimento que cria condições para que a produção cresça e, no longo prazo, a economia se torne mais produtiva, aumentando o poder de consumo dos trabalhadores e, por consequência, do governo. Mas podemos ter crescimento com investimento baixo. Basta haver uma combinação de renda e crédito em alta para as famílias consumirem mais. Ou que o governo faça mais dívida para gastar. Mas quando essas duas fontes pesam demais na composição da expansão do país, há riscos: superendividamento das famílias, incapacidade do setor produtivo atender a demanda, alta de juros provocada pela dívida pública.
Há vários cálculos circulando no mercado que indicam a necessidade de o investimento subir para algo entre 23% e 25% do PIB para a economia crescer mais rápido e de forma sustentável. Teríamos um desempenho mais equilibrado, sem os riscos ligados à expansão dos gastos das famílias e do governo. Uma transição do investimento de 18% para 25% do PIB é um processo político complexo porque exige que a poupança se eleve. É o dinheiro poupado que se transforma em investimento na economia. Se não há poupança, podemos importar recursos de outros países, como estamos fazendo agora, só que a fonte pode ser bastante instável, eleva o déficit externo, ao mesmo tempo em que as empresas do país se endividam em moeda estrangeira.
A poupança interna depende muito da política fiscal. Se o governo tem déficit, como no Brasil, ele usa parte da poupança privada para financiar suas contas, ao invés de o dinheiro virar investimento. Outro efeito do déficit é que os juros tendem a subir, desestimulando os investimentos produtivos. A poupança interna reduziria os juros, e ela deveria começar a subir com uma ação do governo. Outra opção seria o estímulo à poupança privada, como ocorreu com a regulamentação da previdência privada. Mas em um país onde as pessoas estão ávidas por consumir e a educação financeira não é das melhores, demoraria muito para que os resultados aparecessem por aí.
Hoje a poupança do Brasil é de cerca de 15% do PIB. Ou seja, abaixo do que o país investe. Ela precisa subir para dar conta dos investimentos. Os efeitos de não se conseguir essa elevação podem ser dois: crescimento modesto do PIB, ou aumento no rombo das contas externas.
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