
A abertura econômica da China começou no fim dos anos 70 e ninguém deu muita bola. Eram os tempo em que se falava da ascensão do Japão, com suas linhas de produção altamente produtivas, que evoluíram da mimetização para a inovação. Não foram poucos os livros sobre a ameaça japonesa ao Ocidente. Seus produtos baratos colocavam contra a parece a indústria tradicional, que pedia proteção no mundo rico e pressionou até conseguir um acordo cambial em meados da década de 80.
Não é por acaso que a China de hoje suscite análises parecidas com o Japão de então. O país mais populoso do mundo ainda não tem um sistema de produção inovador e produtivo, mas tem milhões de trabalhadores ávidos por um emprego nas fábricas de manufaturados que abastecem o mundo. Suas exportações são vistas como ameaças e as empresas do Ocidente pedem proteção. A pressão por uma correção no câmbio é tão grande quanto a feita sobre o Japão nos anos 80.
O paralelo conta histórias semelhantes, mas não mostra as diferenças que tornam a China mais complexa do que o Japão. A primeira é a falta que a democracia faz no território chinês. O modelo de “capitalismo de Estado” foi a saída para o partido único manter alguma legitimidade, bancada pelo crescimento econômico veloz. Qualquer ameaça ao desempenho da economia, é também uma arma levantada contra o partido.
A China está em um estágio de desenvolvimento muito mais atrasado do que o Japão dos anos 80 – que já tinha a população em estágio avançado de urbanização, educação de qualidade e liderança tecnológica em várias áreas quando passou a ser visto como ameaça. Os chineses ainda têm renda per capita inferior à brasileira, a urbanização ocorre de forma mais ou menos caótica, com a mão do Estado tentando interiorizar o crescimento enquanto várias cidades ultrapassam a casa da dezena de milhões de habitantes.
O modelo de crescimento baseado nas exportações, usado tanto pela China quando pelo Japão, tem uma limitação mais do que clara: nenhum país pode aumentar as exportações indefinidamente. A manipulação do câmbio apenas dá mais tempo para que o acúmulo de poupança nos países superavitários possa se transformar em consumo. Para as autoridades chinesas, é ainda cedo demais para mudar essa política – cedo quando a situação é comparada a outros países que usaram a mesma tática.
É fácil entender por que o governo chinês reluta em aceitar a pressão externa para valorizar sua moeda, artificialmente fraca. A poupança externa permitiu que o país investisse muito, ao mesmo tempo em que suas empresas se especializaram em fabricar manufaturados baratos para exportação. Uma valorização cambial decente faria com que muitos exportadores perdessem competitividade, aumentando o risco político de um ou dois anos de recessão até que o mercado interno, revitalizado pelo poder de compra proporcionado por uma moeda mais forte, fosse capaz de sustentar o crescimento de dois dígitos. O risco de uma recessão mais grave nesse processo é o que preocupa o governo chinês.
A diferença para outros países que usaram as exportações para crescer é que a China é grande demais. Seu superávit trilionário é capaz de comer pontos preciosos no crescimento de parceiros comerciais, enquanto seu acúmulo de poupança ajudou a criar condições para uma queda global dos juros na última década, inflando bolhas aqui e acolá.
Agora, os Estados Unidos tentam sair de sua crise econômica imprimindo dinheiro de forma que os juros possam cair ainda mais. As autoridades norte-americanas esperam que isso ajude a reativar a confiança das empresas e consumidores, elevando a expansão da economia para seu potencial. Não há, nisso, nada de guerra cambial. É política monetária levada ao extremo, com riscos nada desprezíveis. Ao não ajustar sua moeda, a China causa dois problemas: dificulta o ajusta externo dos EUA, que precisam reduzir seu déficit e exportar mais, e alimenta a inflação doméstica.
A resposta das autoridades chinesas à inflação precisa ser mais dura do que em países com câmbio flutuante. No Brasil, por exemplo, se a inflação sobe, o Banco Central eleva os juros para reduzir o dinheiro em circulação. Esses juros atraem mais capitais externos, que valorizam o real e tornam os produtos importados mais baratos. Levando-se em conta que o BC vai recolher os reais que entram no mercado através dos contratos de câmbio, a elevação dos juros é mais suave com o câmbio flutuante. Na China, as medidas de controle de preços não contam com o fator cambial.
É curioso que a China tenha optado pela pior maneira de controlar preços: por decreto. Não precisamos olhar para fora para saber que não é fácil para o Estado dizer quanto deve ser cobrado por uma cabeça de alho. Há, é claro, política monetária (juros mais altos e recolhimento de compulsórios) em vigor, só que o governo chinês talvez não queira ir longe demais no resfriamento do mercado de crédito. Outra preocupação da China é no controle de bolhas. Não falei do alho por acaso: seu preço disparou no último ano, por causa de especulações no mercado. Hoje fala-se até em bolha no mercado de um tipo especial de cogumelo, que já vale mais do que ouro.
Não há dúvida de que, ao importar a política monetária dos EUA, a China assume mais riscos do que se planejasse uma transição para uma estratégia com câmbio flutuante. Sua única alternativa teoricamente coerente para manter o câmbio fixo será o controle cada vez mais forte da entrada de capitais e a contínua estocagem de dólares. Os norte-americanos já mostraram que estão dispostos a produzir dólares suficientes para entupir os dutos que vão até a China, a ponto de ser impossível controlar a inflação sem que se cause uma recessão.
Em resumo, os EUA podem inflacionar o resto do mundo até sua economia entrar nos eixos. O Japão dos anos 80 estava pronto para um acordo e nem tanto para suas consequências – a bolha imobiliária que estourou no começo dos anos 90 foi efeito da política monetária que seguiu a recessão pós ajuste cambial. Logo vamos saber se os EUA têm músculos para fazer o mesmo com a (mais complexa) China.
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