segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Privatização, só fora da campanha

Ver que no primeiro dia de governo o tema da privatização deixou de ser demonizado é um lembrete de como a urgência de se resolverem os problemas do país perde para o calendário eleitoral. Se tivesse dito em setembro que entregaria terminais aéreos para a iniciativa privada, ou que abriria o capital da Infraero, a presidente Dilma Rousseff teria perdido uma linha de ataque e feito um baita serviço para elevar o debate durante a campanha. Passada a disputa tacanha, ela tem de apresentar soluções, e rápido.

A privatização de aeroportos está na agenda do governo desde 2006, ano do primeiro caos aéreo. Desde então, o assunto foi enterrado – difícil dizer por quê. O fato é que o sistema entrou em uma nova normalidade de atrasos, pequenos incidentes, denúncias de corrupção na Infraero e disputas internas do governo. Não saiu privatização nem obra relevante nos últimos quatro anos (a não ser o recapeamento sem grooving da pista de Congonhas e reformas em um ou outro terminal).

A participação da iniciativa privada em aeroportos não é experiência nova. A atividade é lucrativa e não são poucas as empresas que aceitariam metas de qualidade em troca de uma receita crescente em forma de taxas de embarque, estacionamento de aeronaves, aluguel de lojas etc. É um mistério o fato de a Infraero não ser capaz de tocar o negócio, mas isso agora é irrelevante. Quem quiser saber como é um aeroporto privado pode ir a Cabo Frio, onde há uma experiência bem-sucedida no setor de cargas. Ou para Frankfurt, onde o Estado de Hesse e a prefeitura de Frankfurt têm juntos 51% das ações do aeroporto local. O resto está com investidores privados. Em Sidney, na Austrália, é 100% privado.

Os aeroportos brasileiros vão demandar mais de R$ 5,5 bilhões em investimentos até a Copa de 2014. Com a abertura indicada pelo governo Dilma, boa parte desse dinheiro viria de investidores privados, que assumiriam parte do risco do negócio em troca de influência sobre a gestão. Ou seja, o dinheiro vem acompanhado da vigilância e do profissionalismo do investidor. E não precisa de subsídio estatal e malabarismos contábeis como no caso do trem-bala. Só boa gestão.

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