
Não é nova a tese de que os juros necessários para controlar a inflação no Brasil têm ficado estruturalmente mais baixos. O argumento voltou ao debate na última reunião do Copom, que manteve os juros em 10,75% ao ano, quando o mercado apostava que bateria perto de 12% no fim do ano. Claro, a entrada de importados baratos e a lentidão na atividade no mundo rico ajudam a segurar preços, mas haveria um ingrediente interno? A economia estaria mais sensível à alta de juros? Se a resposta for positiva, devemos torcer para que o próximo governo resolva a questão do rendimento da poupança no seu primeiro ano.
Há razões para acreditar que a economia brasileira está mais normal. A primeira delas é que o governo reduziu sua dívida e se tornou credor em moeda externa. Isso fez com que o risco de emprestar ao governo caísse, o que por si já reduziria os juros. A queda da dívida até 2008 também foi acompanhada por uma expansão de investimentos privados, que, quem sabe, melhoraram a produtividade da economia. Com capacidade de absorver choques externos, como ficou claro em 2008 e que se traduz em um câmbio favorável à importação, uma relação dívida/PIB mais estável e mais investimentos, os agentes econômicos podem ter percebido que o risco de repique inflacionário é menor do que no passado. Uma mudança estrutural, portanto, estaria nas expectativas dos agentes econômicos.
Coloco uma segunda mudança que tem a ver com o aprofundamento do uso do crédito e da bancarização no Brasil. Quando o consumo está à margem do sistema de crédito, ele é menos influenciado pelos juros básicos. Vimos uma mudança no padrão do consumo nos últimos anos, com uso mais intenso de crédito, o que pode (e é só uma tese, claro) tornar a transmissão do sinal dado pela taxa básica mais eficiente – ela sobe, as pessoas percebem que é melhor esperar para comprar. A bancarização completa o cenário, já que pessoas com contas nos bancos têm uma forma mais eficiente de poupar e ficam mais suscetíveis aos sinais dados pela taxa básica. Ela sobe, a inflação cai, e passa a valer mais a pena poupar.
Se toda essa mudança for verdadeira e sustentável – em especial no caso da relação dívida pública/PIB, que precisa continuar caindo – há uma chance de o Brasil reduzir sua meta de inflação nos próximos três ou quatro anos e ter uma taxa básica normal de 6%, 7% ao ano. E isso só será possível com algumas reformas microeconômicas, em especial nas áreas tributárias e de investimentos financeiros. Aqui entra a poupança. Por lei, ela garante rendimento de pouco mais de 6% ao ano e fica mais rentável do que outras aplicações quando a taxa básica cai abaixo de 9% ao ano. Isso eleva a dificuldade para o governo rolar sua dívida e, ao mesmo tempo, reduz o incentivo para aplicações mais arriscadas – que, afinal, está entre os objetivos de se reduzirem os juros básicos.
O novo governo terá de escolher entre novas regras para a poupança e meta de inflação alta.
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