quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Querem segurar o câmbio

Não faz muito tempo que ouvi um economista, desses futurólogos que aparecem toda semana na TV, dizendo que a cotação do dólar ia derreter nos próximos anos. Para perto de R$ 1. O argumento principal era o de que o Brasil, como exportador de alimentos, metais e, se tudo der certo, petróleo, não teria como evitar a valorização de sua moeda. Lembro isso porque nesta semana o debate do câmbio esquentou com o Japão fazendo uma intervenção pesada para desvalorizar o iene, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, dizendo que vai segurar o dólar. Vai mesmo?

A previsão de R$ 1 por dólar é exagero? Provavelmente. Mas não adianta a Fazenda dizer que vai enxugar todo excesso de dólar que entrar no país para evitar que a profecia se torne realidade. Isso porque o custo fiscal é grande e a eficiência limitada quando há razões de longo prazo pesando na valorização (como o consumo de alimentos e o grau de investimento obtido pelo Brasil). Também não é aconselhável fechar a discussão em uma saída de livre mercado, com o argumento de que o dólar uma hora vai ficar tão barato que o déficit do Brasil com o exterior vai dar conta de desvalorizar o real. Nesse processo a cotação pode mesmo bater em R$ 1.

A taxa de câmbio é um dos maiores mistérios econômicos, difícil de prever e de influenciar. O Brasil pode aproveitar a enxurrada de dólares para continuar o processo de liberalização de uma legislação feita para tempos de escassez. Tirar recursos do Brasil para investir fora é caro, difícil, burocrático, dito antipatriótico. Ajudaria também a continuidade no ajuste macroeconômico para termos taxas normais de juros, o que limitaria a entrada de capital para investir em títulos públicos e liberaria mais poupança interna para investimentos, o que reduz a necessidade de usarmos poupança externa. E o ambiente de negócios deve se tornar mais amigável para que as empresas não dependam de um empurrão cambial para competir, com o efeito de preços internos estáveis, em um cenário de inflação em alta nos países desenvolvidos nos próximos anos. Pelo menos é que eles querem com déficits gigantescos e imprimindo dinheiro a rodo.

Mas sempre há a possibilidade de o Brasil tropeçar no meio do caminho e sofrer outra crise cambial. Nunca se sabe.

Um comentário:

  1. Boa análise, Guido. O Brasil não deve cair na tentação de conter a desvolarização do dólar. Precisa, sim, aproveitar a enxurrada de moeda estrangeira para que tenhamos, aos poucos, juros mais baixos.

    O problema nessa estratégia é que a Dilma já disse ser contra um ajuste fiscal, o que nos leva a crer que os gastos públicos e o apetite por impostos continuarão nas alturas (junto com a taxa de juros).

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